Dr. Armando Pessoa Verão, médico, filantropo e bairrista (1918-1998)

O Dr. Armando Pessoa Verão (1918-1998) nasceu em SANTO VARÃO. Estudou na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra e, pouco depois de iniciar a sua carreira, foi trabalhar para o Alentejo.
Foi um médico que marcou profundamente a vila de Borba (cidade desde 2009), como diretor clínico do Hospital da Santa Casa da Misericórdia. Mais tarde, transferiu-se para Évora, onde passou a exercecer as funções de Delegado de Saúde.
Verdadeiro “médico do povo”, atendia os doentes a qualquer hora do dia ou da noite e, na maioria das vezes, não cobrava qualquer honorário, chegando a oferecer também a medicação a quem mais precisava. Para além da sua dedicação à medicina, foi um ser humano de trato ímpar e de grande bondade, envolvendo-se ativamente na vida social e associativa da comunidade. Em reconhecimento pelo seu legado de generosidade e solidariedade, o povo de Borba homenageou-o em 2003 com a construção de um busto em sua memória. A sua história continua hoje a ser recordada como exemplo de amor ao próximo e dedicação aos mais desprotegidos.
O artigo que a seguir apresentamos é da autoria do Doutor João Azaruja. Foi publicado em 10 de dezembro de 2014 no “Catavento” n.º 12, II Série — Jornal da Escola Básica 2,3 Padre Bento Pereira (Borba), inserido na rubrica “Vidas de Sempre”.

Dr. Armando Pessoa Verão, médico, filantropo e bairrista (1918-1998)

Armando Pessoa Verão nasceu no concelho de Montemor-o-Velho, no dia 28 de fevereiro de 1918, tendo falecido a 23 de abril de 1998, em Évora. Licenciou-se em Medicina pela Universidade de Coimbra e começou a exercer a atividade médica, em Borba, na transição do ano de 1948 para o de 1949. Casou aqui a 26 de julho de 1951, com a Sr.ª D. Maria Teresa dos Santos Bilro, em ambiente de grande intimidade na capela da sua residência. O celebrante foi o Rev.º Padre Victor Martins Rei, sendo padrinhos, por parte do noivo, a Sr.ª D. Luísa dos Santos Bilro e o Sr. Raimundo da Silva Manguinhas e por parte da noiva, os irmãos Sr. António dos Santos Bilro e a Sr.ª D. Margarida dos Santos Bilro Manguinhas.

Após a viagem de núpcias, que passou pelo norte do país, o Dr. Armando Verão regressou a Borba, onde simultaneamente com o exercício da Medicina, se integrou rapidamente na vida social da localidade. Em 20 de fevereiro de 1952, foi o padrinho do casamento realizado na Igreja Matriz, por procuração, de sua cunhada, a Sr.ª D. Rosalina da Conceição Santos Bilro, cujo noivo trabalhava na base aérea de Santa Maria (Açores).

Em novembro de 1954, o nosso homenageado integrou um grupo de três médicos, que prestavam serviço gratuito, no Hospital da Santa Casa da Misericórdia de Borba, juntamente com o “histórico” Dr. Joaquim Luís Pereira Trindade, nomeado diretor clínico, e com o Dr. José Rodrigues Estrela. Depois da reforma do Dr. Joaquim Trindade, em 1955, o cargo de diretor clínico do Hospital da Santa Casa transitou para o Dr. Armando Verão, responsabilidade máxima, que exerceu até 1976, nesta reta final da sua carreira, agora já como Presidente da Comissão Instaladora do Hospital Concelhio de Borba. Durante a década de 1950, o aumento populacional da então vila fazia sentir a necessidade de criação de um equipamento de apoio à primeira infância.

Deste modo, o Dr. Armando Verão propôs à Mesa Administrativa da Santa Casa da Misericórdia a abertura de um Dispensário Materno-Infantil, que prestasse apoio médico às mães, desde o tempo da gravidez até aos seis anos de idade das crianças. O equipamento viria a ser inaugurado em janeiro de 1959, com o apoio financeiro da Direção-Geral de Assistência. No princípio de 1960, o Provedor Sr. António Lopes Alpalhão, em colaboração com o Dr. Armando Verão, ainda ponderou a possibilidade de se construir um novo Hospital Concelhio comparticipado pelo Ministério da Saúde e pelo Ministério das Obras Públicas, projeto que não viria a arrancar, devido ao início da Guerra Colonial. Ainda no domínio social foi Presidente da Comissão Municipal de Assistência de Borba. Em 2 de março de 1966, o nosso ilustre médico foi agraciado pela Cruz Vermelha Portuguesa, com a entrega da Cruz Vermelha de Dedicação.

No final de fevereiro de 2001, a Junta de Freguesia de São Bartolomeu, na pessoa do seu Presidente, Sr. Artur João Pombeiro iniciou o processo de construção de um busto do Dr. Armando Verão, o qual seria inaugurado em 8 de março de 2003. O monumento foi erguido num recanto ajardinado do Largo dos Combatentes da Grande Guerra, nas proximidades do antigo consultório do homenageado, na presença do Sr. Dr. Ângelo Sá, Presidente da Câmara Municipal de Borba, de outras entidades e de muitos populares. A base do monumento foi trabalhada pelo Sr. António Carapinha e o busto pelo Sr. António Anselmo, estando ladeado pelos brasões da Junta de Freguesia de São Bartolomeu e da Câmara Municipal de Borba. Esta iniciativa constituiu a segunda homenagem pública ao Dr. Armando Verão, já que a sua sepultura ostenta, no cemitério dos Remédios, de Évora, um busto em gesso e um outro em bronze, respetivamente da autoria dos Srs. Carlos Bacalhau e Manuel Pereira.

Para além da atividade de medicina, que exerceu como um verdadeiro missionário, com prejuízo da sua família e do seu próprio bem-estar, o Dr. Armando Verão esteve sempre presente nos momentos difíceis do movimento associativo local, garantindo-lhe a sua continuidade. Foi o caso do Borbense Sport Club, que lhe dedicou uma sala de convívio com o seu nome e o dos Bombeiros Voluntários de Borba, em que foi Presidente da Assembleia-Geral, num mandato iniciado, em 18 de maio de 1963. Logo depois da morte deste ilustre borbense pelo coração, as forças políticas locais uniram-se, na Assembleia Municipal de 26 de junho de 1998, para reconhecer o seu mérito e o seu valor. Em nome da comunidade borbense, os representantes eleitos recuperavam um tempo perdido, um tempo conturbado, em que uma personalidade foi, injustamente, vítima de dissabores e da criação de um ambiente adverso, no pós 25 de Abril.

Retornando ao Poder Local, a moção apresentada pelo P.S.D. referia “Como Homem com uma formação de carácter intocável, com um sentido de solidariedade invejável, com a inteira e permanente disponibilidade para com os outros, sem ambições de riqueza, ganhou a estima e a consideração de todos […] Seguramente nos deixou com uma riqueza interior muito grande, aquela riqueza que não se contabiliza em notas, património ou contas bancárias, o que é só próprio dos Grandes Homens”.

D. Maria do Carmo Alpalhão recorda o distinto médico com estas palavras: “O Sr. Dr. Armando Verão viveu na nossa terra durante cerca de trinta anos. Muito jovem recém-licenciado, aqui conheceu a sua esposa, criou família e raízes e se tornou o médico da nossa família. Facilmente se integrou em associações de cariz cultural e associativo. Trabalhando, no Hospital da Misericórdia dinamizou e modernizou com uma inovação – um aparelho de raio X – onde examinava com mais profundidade os doentes pulmonares. Era tal a sua fama nesta especialidade que vinham diariamente doentes doutras terras próximas para a sua consulta. Recordo-me, que nas maleitas da minha infância e adolescência, os meus pais levavam-me ao seu consultório, na Rua Visconde de Gião, onde sempre fui tratada, com profissionalismo, carinho e muita atenção, mas não tenho ideia de se pagar algum honorário. Tal como eu, a maioria era consultada de graça, e trazendo por vezes também a oferta da medicação. Quando a situação económica o permitia, era retribuída essa consulta com um “miminho”.

Era um verdadeiro “Dr. João Semana”, o último da nossa Terra, sempre disponível de dia e de noite para visitar os doentes em casa, que a qualquer hora lhe batiam à porta. O Sr. Dr. Verão, que embora fosse um doente asmático, vestia o seu sobretudo por cima do pijama e acompanhava o familiar à casa do doente. Era igualmente um Cristão convicto que praticava no seu dia-a-dia o amor e a generosidade ao Próximo. Tive o prazer e a honra de ser visita de sua casa e poder testemunhar o ambiente familiar de Paz e Amor, onde além do casal e do filho, sempre havia outros familiares da esposa, que aí eram acarinhados e ajudados no seu crescimento.

O Sr. Dr. tratava a sogra, que era uma velhinha quase invisual, com todo o carinho e respeito, considerando-a como a Matriarca da Família. Havia também respeito pelos animais, porque havia lá em casa um cãozinho que era tratado de tal forma, como se fizesse parte do lar. Infelizmente, depois de 1974, muita gente foi injustiçada, esqueceu os favores e as atenções deste Digno Médico, Amigo da Terra e dos Borbenses aos quais havia dado o seu saber, a sua saúde e muitos momentos retirados à sua Família. Por essa razão retirou-se para Évora para onde foi viver com a sua esposa, que ainda é viva, continuando os princípios de Amor à Família e ao Próximo. Felizmente a sua lembrança continua no coração de muitos Borbenses. Obrigado ao Sr. Dr. Verão e à sua Família pela Amizade com que me distinguiram.”

D. Brígida Canhão, enfermeira de profissão, deu-nos uma nota, igualmente, importante. Nasceu e viveu até casar, no Hospital de Borba, porque os seus pais eram enfermeiros. Saiu daqui, vestida de noiva com os convidados, tendo o privilégio de ser afilhada de casamento do Dr. Verão, com quem trabalhou, depois de 1974, após o fim do seu Curso. Disse-nos. “Levantava-se a qualquer hora para ir tratar dos doentes, fossem ricos ou pobres, não levava dinheiro a ninguém. No Centro de Saúde, onde comecei a minha carreira, testemunhei de perto, que era afável para com os doentes, um médico que vivia quase só para a Medicina. Nunca o ouvi manifestar-se em privado ou publicamente sobre política, nem antes, nem depois do 25 de Abril. Era muito reservado e até me lembro de dois médicos estagiários, que uma vez fizeram uma manifestação. Como responsável do serviço não lhes disse nada.”

Um grupo de amigos e conhecedores do nosso homenageado, reunidos no Café Castelo, confirmaram e acrescentaram: “Saía de casa, com o capote por cima do pijama, a pé ou montado numa carroça, não importava a hora da noite. Por vezes, era tal o seu cansaço, que chegava a deixar-se dormir em cima da cama do doente. Oferecia medicamentos e era um especialista na cura e tratamento de doenças pulmonares. Mais nenhum médico era capaz de fazer tal milagre. Foi um benemérito da Medicina.”

Autor: Doutor João Azaruja

Agradecimentos: Desembargador Dr. Luís Verão, Enf. Brígida Canhão, D. Maria do Carmo Alpalhão, Enf. José Luís Lameira, Srs. António Coelho, Armando Alpalhão, João Cabaço, João Canhão e Leandro Bravo.

Fonte da publicação: “Catavento” – Jornal do Agrupamento de Escolas de Borba – *Vidas de Sempre XVIII* – n.º 12, II Série, pg. 14-16, 10 de dezembro de 2014.

Deixe um comentário