A Igreja Matriz – parte I

Atualmente e após obras de restauro, efetuadas nos anos 60 do século passado, são poucas as alterações sofridas na Igreja Matriz de Santo Varão. Os dois altares colaterais, policromados, desapareceram, ainda que as referidas imagens, de grande valor artístico, se conservem.

O seu desaparecimento e o vazio criado empobreceram bastante este espaço, ao mesmo tempo que retirou a possibilidade destas imagens continuarem expostas ao culto, com a dignidade que lhes era devida. Em sua substituição foram colocadas, uma de cada lado do arco cruzeiro, duas imponentes esculturas de anjos tocheiros, configurados com uma perna estendida e a outra fletida, envoltos em vestes que se agitam e com as asas abertas, denotando plena movimentação, provavelmente contemporâneas da talha dourada.
Sob o anjo da direita, destaca-se atualmente a pia batismal, de forma octogonal, do século XVI.

Pia baptismal

Pia batismal

O interior do templo, ainda que manifeste uma grande simplicidade, prende a atenção pela sua capela-mor, onde se destaca uma estrutura retabular, em talha dourada, em puro estilo do barroco nacional, onde está aplicada toda uma gramática decorativa, carregada de simbologia. A começar pelo brilho da mesma talha que imprimia essência divina ao espaço em causa e simbolizava a luz de uma nova vida. A tribuna, com o seu piramidal trono disposto em degraus, cumpre a função de expor o Santíssimo.

Altar-mor

Altar-mor

Nos seus flancos, erguem-se dois pares de colunas pseudo-salomónicas, com fuste torso, composto por sete espirais e decorados com pâmpanos, parras e cachos de uvas a serem depenicadas por aves, alternando com os característicos “meninos” (mais conhecidos por “putti”), símbolo da pureza.

Colunas

Colunas

Ave

Ave

A Ave (fénix, simbolo da eternidade) que se encontra nas colunas a depenicar um cacho de uvas, evidencia uma clara alusão à eucaristia, segundo a simbologia barroca.

Os "meninos"

Os “meninos”

Os capitéis são coríntios, decorados com folhas de acanto, simbolizando a imortalidade, graças à qualidade especial de suas folhas, que mantêm o viço mesmo muito tempo depois de cortadas, sendo sobrepostos por cabeças aladas.

Capitéis coríntios

Capitéis coríntios

A forma torsa do fuste prolonga-se nos remates em arquivoltas semicirculares, numa clara alusão à abóbada celeste.

Arquivoltas semicirculares

Arquivoltas semicirculares

Entre os dois pares de colunas, erguem-se pilastras, em cujo fuste se pode observar uma decoração à base de elementos vegetativos. Assentam em pedestais lavrados com concheados e ramagens, que servem de suporte, à esquerda, à imagem de S.José, trajado com vestes minuciosamente estofadas, tendo a mão direita erguida para segurar um bordão, enquanto no braço esquerdo se apoia o Menino Jesus. Os cabelos e barba ondeados envolvem o rosto do Santo; à direita, a imagem de Santa Catarina, barroca, provavelmente contemporânea do retábulo.

As colunas sustentam uma arquitrave a que se segue um friso contínuo decorado com elementos vegetativos interrompido, nas partes correspondentes às colunas, para dar espaço a rechonchudas cabeças aladas. Sobre o friso corre uma cornija decorada.

Arquitrave

Arquitrave

O peso daquelas recai sobre mísulas cujos elementos decorativos são também de natureza vegetativa, tendo alguns pedestais cabeças aladas.

Pedestal

Pedestal

Pedestal

Pedestal

Texto: Fátima Baptista Tarrafa
Fotos: Hermínio Marques

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