A Igreja Matriz – parte III

Pormenor da antiga torre sineira

Pormenor da antiga torre sineira

Do lado direito e em frente da capela dos Rangéis, existiu em tempos um altar, de grande singeleza, dedicado a Nossa Senhora de Fátima, cuja construção deverá ter sido posterior a 1758, dado que o Inquérito Paroquial desta data ainda o não menciona. Com as obras de remodelação, na década de 60, do século passado, desapareceu, porém.
Neste mesmo local, em correspondência à capela dos Rangéis, ”junto ao altar colateral de Jesus, rompendo a parede da Igreja e formando nela um arco com todo o vão de dezoito palmos em quadro no adro“, fora projetada uma outra capela, sob a invocação de S. José, por Francisco Coelho da Cunha, “morador na sua quinta de São Verão que nela pretendia gravar suas armas e sepultar-se nela bem como às pessoas de sua família“. Nela pretendia colocar a imagem de São José, “com a decencia devida para maior veneração su “, imagem esta que já teria adquirido e depositado na Igreja.
Tratar-se-ia, sem dúvida de um panteão familiar, como acontecia com a sua congénere de S.Cristóvão, bem caraterístico deste tipo de famílias, como o revela o facto de aí pretender gravar suas armas.
Assim, em 1752, dá entrada na Câmara Eclesiástica de Coimbra um pedido de licença e consentimento para a sua construção, declarando aquele obrigar bens destinados “aos reparos de que necessitar pelo tempo futuro “.
Para tal, nesse mesmo ano, faz uma escritura de obrigação de fábrica com hipoteca de fazenda de rendimentos suficientes para “os reparos e paramentos da dita capela“.
Mais ainda se compromete a mandar fazer todos os anos uma festa no dia de S.José, que constaria de “uma missa cantada com seu sermão a qual missa será por alma dele outorgante e dos sucessores do seu morgado“.
O empenho demonstrado nesta obra leva-o a recomendar, inclusive, a todos os seus herdeiros que tivessem sempre grande cuidado nos reparos e paramentos bem como na dita festa.
Interrogado o pároco, pelo provisor, afirma aquele não ter a freguesia prejuízo algum, não só por ficar a igreja mais decente com os altares correspondentes, mas “por ficar esta capela fronteira e na direitura da outra também com arco na parede da outra parte“.

Arco da capela de S. Cristóvão, dos Saros ou dos Rangéis

Arco da capela de S. Cristóvão, dos Saros ou dos Rangéis

Além disso, argumenta o referido pároco “por ficar fronteira ao púlpito tem o povo melhor acomodação nos dias de concurso”.

Mais refere o citado pároco ter achado grande desejo da população de a ver feita, pelo que o sítio fora demarcado por marcos, nos começos de 1753
Apesar de tudo se encaminhar no sentido da concretização de tão desejada obra, certo é que esta não se chegou a concretizar. Não é de excluir a hipótese do falecimento do outorgante, ocorrida em 17/11/1755, deixar por cumprir o seu desiderato e os seus sucessores, possivelmente, se terem desinteressado da sua construção.
O seu enterramento acaba por ser feito no interior da Igreja, conforme consta no registo de óbito de 17/11/1755. Por outro lado, o já citado Inquérito Paroquial de 1758 não faz qualquer referência a esta obra, o que seria ilógico se dela houvesse elementos.

Em 1775, o vigário Manuel Pires Ferreira do Espírito Santo alega necessitar a Igreja dos telhados e torre consertados e da sacristia inteiramente reedificada e provida de vários ornamentos que lhe faltavam. Já em relação aos quatro altares, anteriormente mencionados nas Memórias Paroquiais de 1758, di-los ” decentemente ornados “, enquanto que, relativamente à capela dos Rangéis, afirma carecer de tudo o que é preciso para a celebração da Missa. Parece, pois, haver um certo desleixo por parte dos seus administradores.
Por ele sabemos possuir também a igreja, naquela data, seis confrarias: do Sacramento, da Senhora do Rosário, de S. Sebastião, do Senhor Jesus, de S. Verão e das Almas, esta última sustentada por esmolas. Em 1617, pelo menos já existia a da Senhora do Rosário, uma vez que é citada muitas vezes nos registos paroquiais, a quem é atribuída a obrigação de mandar celebrar missas por sufrágio de determinadas pessoas e à qual são legados bens para essa finalidade.
Em 1888, conforme se pode ler no livro de atas da Junta de Paróquia, teria tido lugar a reparação da torre sineira, sem que se especifique, contudo, o tipo de obras levado a efeito.

Pormenor da antiga torre sineira

Pormenor da antiga torre sineira

Anos mais tarde, já na década de 50 do século passado, a mesma sofreu alterações, traduzidas na sua elevação, o que lhe alterou a traça anterior.

igreja - fachada atual

Também e de acordo com as referidas atas, teve lugar no ano seguinte, em 1889, a substituição do velho relógio da torre, relógio esse ” de quartos a bater no disco pequeno e as horas no disco grande, de corda para 24 horas ” por ” um novo sistema moderno“, feito por José Bernardes de Sousa, da Figueira da Foz, pela quantia de 110.000 réis.

(Fátima Tarrafa, 2014)

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