Passeando pela História de Santo Varão XV

Capela de N. Sra. do Amparo

Capela de N. Sra. do Amparo

Em época de grande religiosidade, em que abundavam as festas de igreja e a veneração particular aos santos, não raro era ver-se surgir, disseminadas pelos diversos lugares, capelas particulares cuja origem reside não só na grande devoção por determinadas entidades sacras, mas também no desejo de ostentação por parte de determinados núcleos familiares, verdadeiros potentados locais, que assim viam aumentado o grau de respeitabilidade por parte das populações. O culto mariano, que sempre atraiu os portugueses, recebeu novas consagrações nos séculos XIV e XV, sob a influência das novas ordens religiosas então surgidas, pelo que é vulgar encontrar-se, por todo o país, locais de culto, ligados à Virgem, sob qualquer uma das invocações. Até final do século XV apontam-se mais de mil consagrações à Virgem Maria, quer nas igrejas, quer nas capelas ou ermidas do território português.

Santo Varão não foge à regra. Documentos coevos assinalam ser a capela de Nossa Senhora do Amparo, situada no então Casal das Machadas, desta freguesia, de época bastante recuada. A data da sua construção não é precisa, mas com toda a certeza é anterior a 1619. Nesse mesmo ano foi sepultada “Maria, filha de António Fernandes dentro da hermida de N.S.ª do Amparo, junto com sua may “, o que nos leva a corroborar essa mesma afirmação. O registo de óbito do citado António Fernandes, de 26/09/1623, di-Io morador no Casal da Machada e sepultado “dentro da hermida de Nossa Sª do mesmo cazal que elle mandou fazer“, pelo que não restam dúvidas ter sido ele o seu fundador. A tradição oral vai mais longe ao associá-la ao cumprimento de uma promessa de alguém que, em pleno oceano, confrontado com o perigo de um naufrágio, ter prometido erigir uma capelinha, sob a invocação de N. S. do Amparo, caso se salvasse de semelhante tormenta. E, como muitas vezes acontece ter a tradição oral um fundo de verdade, atendendo à época em que esta capela se encontra inserida, em que as viagens marítimas, quer para a India, quer para o Brasil, eram frequentes, poder-se-á questionar até que ponto será de menosprezar a tradição. A âncora, que a Virgem ostenta numa mão que significado terá? Terá alguma relação com esta “lenda”? Questões que ficam em aberto…
No entanto, não é de excluir esta hipótese até pelo papel bastante importante que as regiões da Beira Litoral e particularmente a região de Montemor tiveram nos Descobrimentos. Investigações recentes revelaram ter sido grande o contributo dado pela região centro para as navegações quinhentistas. Esta importância deve-se, em grande parte ao Infante D. Pedro, duque de Coimbra e senhor de Montemor-o-Velho, grande impulsionador das descobertas. Vários são os navegadores quinhentistas desta região, como é o caso de Aires Gomes da Silva, alcaide-mor de Montemor, o qual trazia navios no alto-mar e de um tal João de Figueiró,(do Campo) “mestre do barinel de Aires Gomes da Silva”, bem como um outro navegador de Santo Varão, do qual desconhecemos o nome.
Este António Fernandes, de que mais nada sabemos, era certamente familiar de Cristóvão Fernandes, fundador da capela dos Saros, possivelmente seu irmão. A única coisa de que se tem a certeza é estarmos, uma vez mais, perante um panteão familiar, já que toda a família aí foi sepultada e apenas a família. Os registos de óbito da mesma época, dos outros moradores do referido casal, dão-nos como sepultados dentro ou no adro da Igreja.

Interior da capela

Interior da capela

Mais tarde, a necessitar já de reparações, serão os herdeiros deste que a isso são obrigados visto “q. herão senhores das d.propriedades” onde aquela fora construída.

Desta ermida somente se volta a ter notícias em 1730, através de um requerimento feito ao bispo por Manoel Luís da Costa e outros moradores no dito casal, a fim de que fosse concedida licença para aí se dizer missa.
Se continuava a ser pertença ou não dos sucessores de António Femandes ignora-se. Anos mais tarde, face ao estado de ruína em que se encontrava, Francisco Coelho da Cunha, (que viria, pouco tempo depois, a requerer licença para construir uma capela, sob a invocação de S. José, na Igreja Matriz), manda-a reformar de ” ornamentos e altar por estar vertendo agoa e cheia de raizes q. se achavão desfazendo…
Conforme se pode ler no termo da visita feita à capela pelo vigário Tomás Nunes Ferreira, não só o altar teria sido reconstruído, como também teria sido aumentada a área, tanto no comprimento como na largura e dotada de mais alguns ornamentos.
O aumento da área, sem dúvida, tem justificação no facto de estar já ao serviço dos moradores do referido casal e como refere o vigário citado “rezultaria grande prejuizo pella distansia em que estão” se os moradores aí não pudessem assistir à missa.
Assim remodelada, viria uma vez mais a entrar em ruína passados alguns anos.
Em 8 de Junho de 1754 dá entrada no Cartório da Câmara Eclesiástica uma nova petição, apresentada pelo Desembargador Manuel Ferreira de Oliveira, “provedor da Camara de Leyria com casa e fazendas no couto de S. Verão“, para mandar fazê-la ” a fundamentis” pelo ” risco que lhe parecer mais decente. ”
A razão invocada é, não só a grande devoção que tinha à dita Senhora, como também o facto de ela estar situada em duas propriedades e olivais que lhe pertenciam à data e que estavam obrigados aos reparos daquela.
No seguimento deste pedido é redigida uma escritura onde consta a doação à capela e hipoteca de uma propriedade de terra lavrada, ficando com o direito de padroado para ele e seus sucessores.
Reconstruída ou construída de novo, feita a vistoria, é, de novo, concedida licença para aí se dizer missa. E, tal como no passado, passou a servir esta ermida de panteão familiar, tal como se pode comprovar pelo jazigo em campa rasa, onde se pode ler o seguinte epitáfio “aqui jazem o Dezembargador Manoel Ferreira d’Oliveira, instituidor d’esta Capella. Falleceo em 1784. E seu neto o Desembargador Faustino Ferreira de Noronha Oliveira e Saro, nasceu em 1778 e falleceo aos 4 de Setembro de 1843. Mandou fazer esta lapide sua esposa Emilia Candida Alves Ribeirode Noronha em testemunho da sua constante saudade.” É esta lápide encimada pelo brasão de família. (Fátima Tarrafa, 2014)

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