A cultura do arroz no Baixo Mondego (parte III)

Estando ainda a decorrer o acontecimento “Coimbra Região Europeia da Gastronomia 2021”, apresentamos um pequeno contributo da Liga de Amigos de Santo Varão para o conhecimento da orizicultura na nossa região.

Segundo o parecer de alguns médicos do distrito de Coimbra, a planta do arroz era inofensiva; apenas a maneira de a cultivar a tomaria insalubre. Logo, a cultura deveria ser feita segundo preceitos higiénicos e observadas as disposições dos acórdãos municipais, já que a cultura  era fonte de grande riqueza nacional. Assim, da maior ou menor estagnação das águas dependia a abundância da colheita.

Concluem mais os médicos que a influência maléfica dos arrozais se estende a distâncias que podem variar de acordo com diversas circunstâncias.

Sendo estas as verdadeiras causas, a solução, segundo estes, seria a irrigação contínua e abundante dos arrozais pelas vantagens que adviriam para a saúde pública.

Pelo interesse de que se reveste, aqui se transcreve o parecer do sub-delegado de saúde, do concelho de Montemor, Dr Augusto Troni, no que concerne à freguesia de Santo Varão:

” A E e SE do concelho estão as duas freguesias de Pereira e Santo Varão onde só nos últimos annos se cultivou o arroz e em quantidades insignificantes e, onde, tirante as águas que se estagnam numa ou noutra barroca a espaços abertos ao lado da via férrea, já se não encontram pantanos graças aos trabalhos empreendidos e executados pela direcção das obras do Mondego. Pois, não obstante, annos há em que estas duas freguesias são tão flagelladas como as outras pelas endemo -epidemias paludosas, sobretudo Santo Varão que tem a mais e a seu favor posição elevada e um terreno completamente enxuto. Mas com elas se defrontam do outro lado, do valle do Mondego, a 2 ou 3 km de campina rasa e no rumo dos ventos dominantes ( N e NO ), as freguesias da Carapinheira e Meãs, que extensamente praticam a oryzicultura”.

Mais acrescenta o referido clínico ” Eu vejo gente dos logares de Formoselha e Santo Varão sair indemne para os trabalhos do arroz em Foja e voltar de lá inutilisada pelas febres”.

Também as informações paroquiais, pedidas aos respectivos párocos pelo bispo, são uma preciosa fonte de avaliação da situação.

Relativamente a esta freguesia informa o pároco local:

“Não se cultivam arrozaes n ‘esta freguezia e nos quinze annos que a estatística abrange, apenas em 1868 e 1878 foi superior ao dos nascimentos o número de óbitos.

É porém esta localidade influenciada pelos miasmas exhalados dos arrozaes que se cultivam a norte, e d ‘este facto resulta morrerem nos hospitaes da universydade e n ‘outros pontos numero consideravel dos seus habitantes”.

De facto a cultura desta planta era insignificante na freguesia. Apenas se encontra registada uma área de 6.804m2, em 1881.

Ainda no capítulo das conclusões o referido inquérito aponta o incumprimento da legislação em vigor, que restringia ou acabava com esta cultura em determinadas áreas, bem como exigia licença de cultivo noutras. As razões apontadas para este incumprimento são encontradas nas influências locais, falta de policiamento, falta de fiscalização permanente e rigorosa, indiferença das autoridades administrativas e por último, mas não menos importante, no interesse dos cultivadores dados os grandes lucros auferidos.

E, como a extensão cultivada aumentava à medida que as taxas sobre o arroz importado se elevavam, chegava-se, então, a propor a supressão destas taxas para, obviamente, fazer descer o preço deste, desincentivando assim a produção nacional.

Simultaneamente propunha-se o lançamento de um imposto sobre a produção nacional, dado os grandes lucros verificados.

Apesar de todas estas pressões no sentido de por fim a esta cultura o certo é que ela continuou a fazer-se , ainda que exigisse um trabalho bastante ingrato, a que não faltava um certo ritual a que se juntava a tipicidade dos trajes habituais neste processo de cultivo.

Principiava este pela preparação da terra, lavrada e gradada com o auxílio de uma junta de bois.

Seguidamente os valadores, trajados com calças de riscado, arregaçadas, presas nos joelhos com fitas, camisas de riscado e chapéu de palha ou então barrete e munidos de pá de valar, “esbordeavam” as terras para preparar as marachas e respectivos regadios, que iriam abastecer as marinhas de água.

Numa fase posterior, homens vestidos de calça de cotim, camisa de algodão amarelo e boné na cabeça, davam início à sementeira, em viveiros, lançando a semente à terra, semente esta transportada em sacos de linhagem, atados em forma de funil, que penduravam ao pescoço.

Cerca de dois meses depois era então a altura de plantar o arroz em canteiros previamente alagados. Tratava-se de uma tarefa que exigia abundante mão-de-obra e a qual estava a cargo das mulheres que, trabalhando de sol-a-sol, eram vigiadas pelo capataz, ao qual competia “tirar o ponto” para que no fim-de-semana de trabalho o patrão efectuasse o pagamento do salário.

A paisagem cobria-se, então, de ranchos de mulheres, as mondadeiras que, nas marinhas, metidas na terra inundada, até acima dos joelhos, dobradas, cabeça quase a tocar na água, mãos e pernas cobertas de água lodosa, com as saias entre as coxas, formando calções, mergulhavam as mãos em busca de ervas e limos.

Mal a seara começava a amadurecer lá vinha o flagelo dos pardais que agenciavam a sua refeição, debicando o arroz. Era então a vez de grupos de rapazes, a troco de uns míseros tostões, espantarem os intrusos, ao som do toque de latas.

Uma vez amadurecido chegava a hora da ceifa. Ranchos de mulheres, as ceifeiras, vestidas com saias de algodão, presas por uma corda abaixo da cinta, deixando ver o saiote, blusa do mesmo tecido, embora mais fino, chapéu de palha preso por um lenço garrido, davam início à ceifa, com o auxílio do imprescindível foicinho.

Actualmente os campos do Baixo Mondego continuam a cobrir-se desta cultura sem que estes problemas de saúde pública se coloquem e  já com recurso à mecanização. Aposta-se mesmo na sua divulgação com recurso à organização de um festival anual, promovido pelo município.

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