Passeando pela História de Santo Varão XIX

O Rio Mondego – Parte II

barca serranaSe o assoreamento do Mondego tem destruído a sua beleza e operacionalidade, o mesmo não acontecia em tempos idos.
A navegação flúvio-marítima remonta, pelo menos, à ocupação fenícia (séc. VII ou VIII A.C.) perfeitamente bem registada na estação arqueológica de Santa Eulália, próxima de Maiorca.
Durante a ocupação romana tudo indica chegarem até Coimbra os navios de mar, o mesmo acontecendo durante a Idade Média. Ainda no século XVIII era navegável até ao Dão, por ele circulando barcos, que não raro aqui faziam escala. Com efeito, na Idade Média, Coimbra, Montemor e Soure eram portos interiores onde com facilidade chegavam os barcos mercantis de alto mar, de árabes e normandos. No tempo do nosso primeiro rei ainda atracavam a Coimbra navios de pequeno calado.
Abundante em espécies piscículas variadas, entre as quais se contavam barbos. tainhas, sáveis, enguias e lampreias ( pertencendo o monopólio destas, ainda no século XVIIl ao duque de Aveiro), justifica este facto que, entre os diversos grupos sociais, se contassem os pescadores, para quem o rio era o seu sustento. De facto, a pesca fluvial praticada em grande parte do curso do Mondego, incluía o termo de Montemor. Não raro era encontrar trabalhadores rurais desta área a complementarem a sua faina agrícola com a da pesca, cujo produto não só lhes assegurava uma dieta alimentar mais variada, como também se assegurariam mais umas quantas moedas que melhorariam as suas condições de vida.
Santo Varão não fugiu à regra. Ainda na década de 50 do século XX algumas pessoas dedicavam parte do seu tempo à pesca de várias destas espécies, em particular à da enguia, que depois era vendida entre a população local.
A beleza que o Mondego emprestava a esta zona era complementada pela quantidade de salgueirais que, ladeando as margens, as defendiam das águas, águas essas consideradas, ainda no século XVIII, com particulares virtudes para banhos. Apesar das características irregulares do seu regime, foi este rio, até cerca de meados do século XIX, antes do aparecimento do caminho de ferro e da abertura de estradas, a única via de comunicação fácil, entre o litoral e o interior desta zona centro do país. Ainda que não navegável em toda a sua extensão, pelo menos era-o até à região de Penacova. Através dele, a cidade de Coimbra e o entreposto fluvial de Montemor escoavam os seus produtos e recebiam os que de outras regiões e até de zonas mais distantes, por via marítima, davam entrada no país. Era assim possível receber mercadorias e embarcá-las até Coimbra ou mais além, já que no Inverno era navegável pelo menos até ao porto da Raiva, um dos maiores e mais importantes até meados do século XIX e onde se carregavam os excedentes da Beira interior com destino a Coimbra e até mesmo à foz do Mondego.
Era grande o número de ” portos” quer na margem esquerda quer na direita, pequenos lugares de embarque, que se situavam nas proximidades do porto marítimo- fluvial de Montemor. Ao longo dos séculos tudo se transportava pelo rio. Ainda hoje permanece na memória dos mais idosos da terra o vaivém das ” barcas serranas”. Tratava-se de um tipo de embarcação caracterizada pelos seus dois bicos em ponta levantada, de fundo chato, de cor negra e vela branca, com cerca de 20 metros de comprimento por 2 metros e 50 de largura. Pensa-se que terá sido inspirada em modelos da Mesopotâmia e é da família dos barcos da ria de Aveiro. Possuía o fundo chato de forma a facilitar a passagem pelos baixios e era utilizada sobretudo para a navegação ao longo do rio, num trajecto entre a região de Penacova e a Figueira da Foz. Tinha capacidade para transportar cargas até aproximadamente 15000 quilos.

Barca serrana

Barca serrana

A este colorido das barcas juntava-se o dos barqueiros, homens possantes, de pés descalços, munidos de ceroulas de linho até aos joelhos, de uma camisola de lã, um colete e em ocasiões de mais frio um barrete. Deslizando ao sabor da corrente, as barcas, no sentido descendente, geralmente usavam como meio de propulsão a corrente. Quando havia algum vento, os barqueiros aproveitavam para montar o mastro e de seguida a vela, feita de lona. Outro meio, usado principalmente na subida do rio, era a vara e quando a água era escassa os barqueiros recorriam à sirga. Consistia este processo em prender uma corda à proa e na outra extremidade da corda prender uma ou duas varas, afastadas, com um ou dois nós, com um barqueiro em cada vara e puxavam a barca de uma das margens.

Regra geral, demoravam estas viagens de ida e volta três a quatro dias. Quando as condições atmosféricas e o bom vento o permitia, os barqueiros chegavam a fazer duas viagens por semana à Figueira. Descendo o rio, carregavam vinho, batatas, fruta, castanhas, madeiras, lenha e carqueja e, visitando esta área, seguiam com destino à Figueira, porto exportador por excelência, especialmente do vinho, já que em anos regulares eram transportados da foz do Dão para a Figueira cerca de 10.000 pipas de vinho da Beira. De regresso, era trazido o sal que, em curtas paragens, nestes “portos fluviais” era anunciado sob a forma do pregão “sal ao rio”, o qual em anos climatéricos favoráveis constituía o grosso das mercadorias transportadas.
Segundo dados estatísticos, em 1717, teriam vindo rio acima 319 moios e em 1719 chegariam aos 895 moios.
Também se recorria a este entreposto para exportação do peixe que, depois de preparado e encaixotado nas rampas do cais da Figueira, aqui chegava em pequenas bateiras para ser despachado, pelo caminho-de-ferro, com destino ao Alentejo e Espanha.
Ainda anteriormente às últimas obras de regularização do seu leito, a uma parte da zona compreendida entre o rio e a vala se dava a designação de “a doca”, reminiscência clara deste porto de Santo Varão. O “Livro De Penacova ” ( 1773/74) regista curiosamente a 27 de Março de 1774 a saída, por via fluvial, de 400 alqueires de feijão ” para Sam Varam, termo de Montemor”. Esta utilização do Mondego como via comercial, está bem documentada nos forais, posturas municipais de Coimbra, cartas régias de D. Afonso lV , D.João I e Infante D. Pedro. Numa descrição de Coimbra quinhentista, feita por J. Branquinho de Carvalho, lê – se: «Descendo o Mondego ou velejando da sua foz, uma multidão de barqueiros, na natural e melhor via de comunicação e transporte da época, fazia convergir o tráfego mais importante, para satisfazer as necessidades da população».

barca serrana coimbra

Barca serrana numa das paragens em Coimbra

O mesmo se deduz da análise dos forais de Coimbra e Montemor, de 1516. O próprio senado da Câmara de Coimbra decidiu em sessão de 1 de Outubro de 1580 que “d’ahi em diante nenhum barqueiro fosse tão ousado que levasse mais de carregamento, por cada barco, de Coimbra para Buarcos do que 500 réis; e até Montemor 320 réis. E sendo por légua a 80 réis”. Os barqueiros que o contrário fizessem pagavam 1$000 réis de cadeia.
Esta ousadia que é atribuída aos barqueiros é corroborada nos periódicos regionais, onde se alude às fraudes que cometiam a maior parte destes, ao transportarem as pipas de vinho para a Figueira. Os negociantes seriam constantemente roubados, dado que era subtraído o vinho das pipas e este danificado já que era introduzida água nestas para substituir o vinho roubado.
“Os barqueiros a que dão o nome de serranos, que conduzem vinhos para a Figueira e estação do caminho-de-ferro, repartem tão avultados litros, especialmente com os pescadores, que pescam nas águas do Mondego, que é impossível que os donos destes vinhos não soffram um grande prejuizo em suas qualidades; e para que estes senhores se acautelem, e não vivam na ignorancia de uma tal delapidação, os vou prevenir por este modo…”, lê-se num periódico regional da época.
Também Duarte Nunes de Leão na obra “Descrição do Reino de Portugal”, em 1610, se refere a esta navegação nestes termos: «Navega-se muita parte delle com barquinhos e jangas em que trazem a Coimbra e adiante madeira e tavoada a vender. E de Coimbra como já leva mais água se navega em maiores barcas até ao mar». Com o surgir do século XIX a actividade mercantil neste rio não desapareceu, pelo menos até finais do século, ainda que o contínuo assoreamento tomasse cada vez mais difícil essa navegação.
A importância que esta via continuava a ter explica as obras que então foram realizadas com vista a uma melhor navegabilidade. Assim o dá a entender o encarregado da direcção das obras hidraúlicas do rio Mondego, José Pinto de Almeida, em 1822, ao escrever: «Para maior facilidade de navegação […] servem os marachões do norte de sirgadouro, para o que se decotaram os arvoredos na margem do rio em altura tal que não estorvem a sirga[…]. Além disto o sirgadouro serve de uma excelente estrada de comunicação de Coimbra com Montemor e mais povoações que cercam os campos».
Ainda na década de 80 do referido século por este rio era transportado o vinho que da Figueira seguia para Lisboa e daqui para o Brasil, por intermédio desta estação do caminho-de-ferro. (Fátima Baptista, 2014).

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