Passeando pela História de Santo Varão XVIII

O Rio Mondego – Parte I

mondego1Foi esta povoação beneficiada, desde tempos bastante recuados, pela proximidade a que se encontra do secular Rio Mondego, o Munda dos romanos. A ele se refere o vigário José António Pereira, no Inquérito Paroquial de 1758, ao afirmar que corre pela “parte norte de São Verão em distancia de hum tiro de pedra“. Por tal razão desde sempre se conheceram bem os efeitos das suas cheias, por vezes catastróficas, não só pela abundância de água, mas também pela quantidade de resíduos que depositavam nos campos. Tornou-se este rio uma ameaça para os campos ribeirinhos já a partir de fins do século XII, princípios do século XIII, época em que se tomaram sensíveis as alterações no seu regime, graças à acção do homem. Sem dúvida alguma, os efeitos da erosão provocada ao longo dos tempos, contribuíram em larga escala para esta situação. Nos primórdios da nacionalidade, a densidade do povoamento arbustivo e arbóreo nesta área que, com o andar dos tempos foi desaparecendo, foi um sério impedimento para tal fenómeno. A intensidade, desde o séc. XV, da desflorestação para introdução de culturas de regadio e as exigências em madeira para a construção naval durante o período das Descobertas, muito contribuíram para tal situação. Queixas e projectos levantaram-se ao longo dos séculos, tendo como objectivo a regularização do curso do Mondego, atenuando-lhes os efeitos prejudiciais. Documentos das chancelarias régias dão notícias dos problemas da valagem nos campos do Mondego, a partir da 2ª metade do século XV. Geralmente apontavam-se como causas a falta de coordenação dos trabalhos de manutenção das valas. Como corolário de tal facto, em 14 de Setembro de 1472 era assinado um regimento segundo o qual devia haver 100 valadores distribuídos por todas as terras, fiscalizados por juízes, vedores e mestres. Nas cortes de Évora de 1490, afirmavam os povos de Coimbra achar-se a causa da destruição dos campos de Coimbra nas “muitas areias” que dos montes corriam ao rio que as espalhava por eles. A situação criada levou a que, a partir do século XVI, os governantes se preocupassem em fiscalizar de perto o problema, proibindo tudo o que pudesse obstruir o leito do rio e simultaneamente promover a manutenção das valas de escoamento em boas condições. Um documento datado de 1575 dá conta de que as obras mandadas fazer por el-rei tendo em vista o encanamento do rio não se chegaram a efectuar.
De 1627 data outro documento que dá conta de uma vistoria aos campos do Mondego o qual se torna curioso pelas notícias que fornece acerca do estado do rio e campos. Nele é referido que os campos de Vila Pouca e Ameal se achavam coalhados de pântanos produzidos pelas quebradas do Mondego e que nos campos de Santo Varão se podiam cortar boas terras pertencentes ao Bispo Conde, com vista ao encanamento.
Assim, já nesta época era tal o assoreamento que não se descortinava outro remédio para acudir à tragédia das planícies senão rasgar um “alveo” artificial. Contudo o projecto não se concretizou.
É, pois, este assoreamento progressivo do Mondego, a par da diversidade dos tipos de embarcação e aumento da sua arqueação que tornavam inoperantes os portos flúvio-marítimos interiores, de Coimbra à Figueira. Anos havia que de Taveiro a Santo Varão o rio “se sumia” durante alguns dias de verão, amontoando-se as areias a ponto tal que o leito se tornava superior aos campos marginais.
Levantando-se, então, clamores contra esta aflitiva situação, autorizou o governo por carta de lei de 28 de Agosto de 1848, um empréstimo no valor de 12.000$00 réis às diversas câmaras municipais que possuíam terras nestes campos, para ser aplicado às obras de maior necessidade. Disso beneficiou a Câmara de Santo Varão, efectuando obras no valor de 3.712$00 réis. Em 1790, foi entregue ao padre Estevão Cabral o projecto de encanamento artificial do rio, a jusante de Coimbra, traçando este um curso rectilíneo e estreito para que, aumentando a velocidade da corrente, pudesse transportar até ao mar todas as areias e diminuir assim o assoreamento. Ficou, contudo, por concluir. E é precisamente em 1856 que esta regularização se completa entre Santo Varão e Montemor.

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Os campos em época de cheias

A eficácia das medidas tomadas não teria tido provavelmente um grande alcance já que o problema do assoreamento foi progressivamente dificultando a navegação, levando ao seu desaparecimento na década de 50 do século XX.(continua…)

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